segunda-feira, 14 de março de 2011

6

Fiquei sentado, durante uns minutos, depois fartei-me, peguei no meu casaco e fui para casa. Nem lhe tentei ligar, nem a procurei. Se fosse comigo, quereria que me deixassem em paz, e eu sabia que ela precisava de estar só. Afinal, se precisasse de mim, sabia onde me encontrar.
Fui para casa, passei pela cozinha, tirei umas bolachas e enchi um copo de água, entornei um pouco. Passei pela sala, onde a estava a minha tia a ler um livro.
- Então a Catarina?
- Não sei. (trinquei uma bolacha e de seguida sentei-me ao pé dela) Ela foi embora de casa quando lhe disse que não podia ir com ela a Lisboa.
- Porquê?
- Bem, acho que ela realmente queria que eu fosse, quer dizer, nunca duvidei disso, mas acho que foi um pouco drástico e incompreensivo da parte dela, e não gostei da atitude dela... Não gostei mesmo.
- Tens que te aperceber que ela gosta muito de ti, e eu sei que também gostas dela, e ela sabe-o, e ires com ela a Lisboa era um passo na vossa relação, era um tipo de marco, era muito importante para ela estares ao seu lado... Mas ela vai-se aperceber que tu queres ir, mas que não podes, o que são coisas completamente diferentes. Está bem Gabriel? Entendes?
- Sim, tia. Mas é complicado, estava tudo a correr bem, e ela de um momento para o outro, faz o que fez. Eu amo-a, mas às vezes deixo de ter paciência para estas coisas... Mas há-de ficar melhor.
- As coisas resolvem-se. Ela já te disse alguma coisa?
- Não, eu espero que ela diga, espero mesmo. Que livro lês?
- "O sonho do Celta", conheces?
- Oui, óbvio, eu sou muito culto.Mario Vargas Llosa. Bem tia vou para o meu quarto descansar um pouco, se não te importares, vou ver um filme ou assim.
- Vai sim, e se ela ligar diz-me, ou se precisares de alguma coisa. Se for preciso convida-a para cá jantar.
- Eu direi tia, não te preocupes. Mas isso de ela jantar cá, acho que ela não alinha lá muito nessas coisas.
- Porquê?
- Raparigas. ( rimo-nos) Estou a brincar, mas posso falar com ela. Desde que seja programado antecipadamente.
- Sim, claro. Convém.
Sorri e subi as escadas, estava cansado e triste.Cheguei ao quarto e tirei os sapatos, a camisa e as calças. Deitei-me por cima das mantas, peguei no livro que tinha estado já à algum tempo, e foi aí que me apercebi que devia fazer alguma coisa em relação à Catarina, então levantei-me e voltei a cair na cama. O cansaço era de mais, tudo me estava a acontecer de errado. Então por uns momentos fechei os olhos e imaginei tudo a correr bem.
adormeci. Não me lembro que sonhei. Acordei com o toque da campainha. Ouvi a minha tia a falar e de seguida ouvi a voz de Catarina e levantei-me de seguida, vesti-me e desci as escadas.
- Cá está ele! Bem, tenho de ir despejar o lixo. Perdoem-me. - Assim saiu a minha tia.
Catarina estava sentada no meu sofá, triste, tinha as mãos juntas uma à outra, não estavam agarradas, juntas apenas. notei que ela não estava nada bem.
- Devias ir comigo ao médico.
- Porquê? - Sentei-me a seu lado e peguei-lhe na mão, ela não olhou para mim.
- Gabriel , faz o que eu te digo antes que seja tarde de mais.
- Podes parar com essas coisas e dizeres-me que fizeste Catarina? Catarina! Por amor de Deus! Que criança. Quantos tomaste?
- Quantos quê?
- Comprimidos.
- Nenhuns. Não tomei nada.
- Então? - Ela levantou-se repentinamente.
- A Minha mãe morreu Gabriel, sim? E Pára tu. - Nisto mandou a sua mão contra meu peito, e eu agarrei-a e ela começou chorando encostada a mim. Sentei-a no sofá, e ela pousou a sua cabeça no meu colo, e eu agarrei-a com uma força que não sabia onde tinha estado até aquele momento. E ela chorou e nada disse.

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